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Prazer (Michelle Brito)

Alguns já ouviram falar da história de Tirésias contada na mitologia Grega, outros já viveram. O mito conta que Zeus, o deus maior da mitologia Grega, teve inúmeras aventuras amorosas; não obstante, o implacável ciúme de sua mulher Hera. Os constantes desentendimentos do divino casal, no entanto, não impediam Zeus de persistir na utilização de todos os recursos possíveis para satisfazer seus desejos insaciáveis. Um dia no Olimpo, discutiam acaloradamente Zeus e sua mulher Hera a respeito de quem teria maior prazer no ato sexual, o homem ou a mulher. Para resolver a questão decidiram pedir a opinião de Tirésias, que numa mesma existência já havia vivido a experiência dos dois sexos (hermafrodita). Prontamente Tirésias respondeu que se o prazer sexual pudesse ser fracionado em dez parcelas, a mulher teria nove e o homem apenas uma, ou seja, o prazer da mulher era nove vezes maior que o do homem. Hera ficou tão furiosa com a resposta que decidiu vingar-se cegando-o para sempre.Tirésias havia revelado seu grande segredo.

Presumo, a partir do mito de Tirésias, que sob a fúria de Hera, há duas verdades sobre o que se passou no Olimpo: uma delas sobre o poder masculino, capaz de proporcionar a uma mulher o prazer sexual nove vezes maior; e a outra sobre o poder feminino, pela forma como podem as mulheres permitirem entregar-se ao gozo, de forma tão integral e invejável.

Este texto mitológico remete a vários pensamentos e reflexões sobre o assunto. Um deles seria relativo ao prazer sexual feminino e a anorgasmia. Sobre esse último tema tenho especial interesse, devido aos poucos estudos relacionados em psicologia e por se tratar, apesar dos avanços alcançados pela mulher, através dos movimentos feministas, de um assunto ainda polêmico.

Temas acerca da sexualidade feminina e suas vicissitudes na atualidade, como por exemplo, a relação conjugal, o papel da mulher, a preocupação com a estética, dentre outros fazem parte de estudos do meu cotidiano.

De acordo com uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Estudo em Sexualidade Humana 30% das mulheres têm dificuldades de chegar ao orgasmo. Assim o que me move ao pesquisar tal temática não é simplesmente o fato de 30% das mulheres sofrerem de anorgasmia, mas o fato dessas poderem estar sofrendo psicologicamente com esta dificuldade diante das demandas contemporâneas de prazer e dos diferentes apelos que a cultura faz em relação à vivência da sexualidade na atualidade. Assim, vejo a importância de se estudar sintomas e problemas relativos à sexualidade na contemporaneidade do ponto de vista psicológico, biológico, social e histórico.

Para tal é importante investigar elementos de como a história da sexualidade feminina e da vida da mulher influenciam na configuração da queixa da anorgasmia, investigando algumas dimensões mais específicas (social e cultural) e como essa história contribui para a compreensão desta queixa. Bem como os fatores psicossociológicos, tais como: relação com a família, relação conjugal e com os filhos, bem como as questões comportamentais relacionadas a características individuais da personalidade, que podem influenciar na anorgasmia.

Com isso, e refletindo através do mito, questiono: por que muitas mulheres têm tido incapazes de usufruir toda a sua potência para a sexualidade? Como o sofrimento experimentado por essa queixa é vivido por essas mulheres? Outro ponto que questiono é: como nós, enquanto profissionais da saúde quer seja psicólogo, psiquiatra, ginecologista, podemos construir, junto à mulher que apresenta essa queixa, sentidos para esse sofrimento e, assim contribuir para o desenvolvimento de estratégias e recursos pessoais para lidar com ele?

Para responder a tal questão, considero primeiramente uma possível definição do orgasmo, para que depois haja uma melhor compreensão da anorgasmia enquanto sintoma e para, então, traçar uma compreensão deste sintoma na nossa cultura contemporânea.

A anorgasmia ou a falta de orgasmo pode ser considerada um fenômeno psicofisiológico, sendo na mulher bem mais freqüente. Segundo o Centro de Estudos e Pesquisas em Comportamento e Sexualidade (CEPCOS), 90% das causas da falta de orgasmo são de ordens psicológicas; as demais são conseqüências de disfunções físicas.

Isso me faz refletir em algumas questões acerca da sexualidade na nossa sociedade, como por exemplo: o que é o desejado em uma relação sexual? Que prazer sexual é esse neste modelo de humanidade na nossa cultura atual?

Considerando tais questionamentos, sabemos que em um relacionamento considerado saudável em nossa sociedade é esperado que a pessoa tenha desejo pelo parceiro, fique excitada, e finalmente atinja o orgasmo. No entanto, sabe-se que conseguir chegar a esse ápice de excitação sexual, o orgasmo, nem sempre é possível, devido a diversos fatores, os quais poderei estar comentando no decorrer dos meus artigos.

Considero, então, que a sexualidade não pode ser vista dissociada da psicossomática e que a resposta sexual humana é uma das mais representativas dos fenômenos psicossomáticos. Assim, é possível entender como estímulos físicos, psicológicos ou sociais atuam sobre o organismo, determinando respostas que se apresentam sobre o ponto de vista anatomopatológico. As disfunções sexuais tomadas como doença, e dentre elas a anorgasmia, não fogem a essa regra.

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